Muitos de vocês já devem ter visto alguma coisa sobre o que está acontecendo na USP por aí. Cuidado com o que tem sido dito "por aí" pois as coisas são um poucos mais complexas do que a mídia brasileira está divulgando loucamente, sem censura e sem muita informação. Vim aqui com o intuito de esclarecer alguns pontos e deixar todo mundo um pouco mais a par do que REALMENTE se passa na faculdade que eu estudo, e como os alunos de lá tem agido e o porque realmente disso tudo.
Para começar: NÃO é uma luta pela maconha. Os alunos da USP não estão numa luta conjunta para a legalização e liberdade da droga ou privilégios de não serem atingidos pela lei. Existem pessoas assim lá dentro, que não querem nada com nada e apenas fumar sem pertubação? Acredito que sim, mas nenhuma dessas pessoas é quem eu estou vendo em assembléias, discussões ou que estão envolvidos de coração na luta que a faculdade está organizando. Então, não: não é uma luta de mauricinhos e patricinhas a favor de um privilégio. Esqueçam isso.
Continuando...
Confesso que eu mesma fiquei muito puta com tudo o que houve quando essa baderna começou. Sou CONTRA a ocupação da reitoria e sou CONTRA o afastamente imediato da polícia do campus. Hoje participei de uma assembléia no meu departamento. O que o Jornal do Campus tem divulgado com muito bom senso e honestidade (http://twitter.com/#!/jornaldocampus) e o que tem sido discutido dentro da faculdade tem me ajudado a abrir um pouco os olhos e entender isso no geral, sem tomar nenhum lado radical, mas entendendo a situação, relevando erros e aceitando propostas que são razoáveis e extremamente necessárias. Uma das primeiras coisas que falamos e aceitamos em assembléia é que de fato os alunos da USP estão sendo tachados como mimados e maconheiros vagabundos, tudo isso porque o estopim se deu quando a polícia abordou de maneira abusiva alunos fumando e outros alunos começaram a se intrometer e enfim, acabou no que deu: mais raiva pela polícia e invasão (estúpida e compulsiva na minha opinião) da reitoria e etc etc...
Realmente foi um timing péssimo para impor o que pensavam pq o que ficou claro para mídia é que os alunos simplesmente se incomodaram com o fato da polícia os impedir de fumar. E a questão É maior que isso, e é aí que quero esclarecer a confusão: a questão da PM já é um assunto há muito discutido no campus. A mobilização que aconteceu agora é consequência de ideais e lutas que existem no campus por diversos motivos há muito tempo.
Mas pq agora??? Isso que tem incomodado a todos. E essa questão deixa de ser central. Foi agora, talvez por motivos e impulsos errados, mas começou, e isso é importante. Trocando uma ideia rapida com o querido Rainer, ele me disse que os alunos da USP tinham obrigação moral de defender seus ideias contra a polícia violenta FORA da faculdade e eu concordei e concordo 100% com essa afirmação. E Rainer, te digo: isso tem sido discutido nas assembléias! Ontem mesmo houve uma mobilização enorme no Largo São Francisco depois de uma Assembléia na SanFran (foto abaixo) e muitos alunos tem a perfeita noção de que o assunto é da sociedade, não só da faculdade. E hoje esse assunto foi retomado outra vez. Precisamos expor o que a faculdade está pensando para toda a sociedade, dentro e fora do campus.

Os alunos estão entrando em greve. Querem suspensão das atividades acadêmicas, e isso ainda está difícil pq poucos estão realmente dispostos a entregar o semestre e ter em risco a reprovação nas matérias. O que a maioria tem votado (inclusive eu) é uma por uma mobilização onde convidamos os professores a debaterem com a gente o que está acontecendo, e a manter os dias de provas e entregas e trabalhos. A intenção central da greve agora é fazer os horários de aulas se tornarem aulas públicas com debates e atividades pacíficas para expor aquilo pela o que faculdade luta. Os pontos principais, embora não concorde com todos (pessoalmente de verdade acabo por só crer no 5...) que a greve propõe é pela luta de:
1 – Retirada de todos os processos movidos contra estudantes por motivos políticos
2 – Fora PM: Pelo fim do convênio da USP com a Secretaria de Segurança Pública
3 – Liberdade aos presos e nenhuma punição administrativa ou criminal
4 – Fora Rodas
5 – Outro projeto de segurança na USP.
Que a reitoria se responsabilize por:
a) Plano de iluminação no campus
b) Política preventiva de segurança;
c) Abertura do campus à população para que tenhamos maior circulação de pessoas;
d) Abertura de concurso público para outra guarda universitária, que tenha treinamento para prevenção dos problemas de segurança e com efetivo feminino para a segurança da mulher;
e) Mais circulares;
f) Circular até o Metrô Butantã.
Resumindo...Ninguém está indo a assembléias com a vontade de fazer greve e ficar dormindo/fumando em casa. Um dos professores mais éticos e competentes daquela faculdade, e com quem tive o grande privilégio de ter aulas de nada mais nada menos que ÉTICA, fez uma aula pública super construtiva para muitos, inclusive dois alunos que foram preso na confusão da reitoria estavam lá ouvindo e APRENDENDO com um grande profissional/professor.

"Há uma crise de legitimidade no movimento estudantil, mas há também uma crise de representatividade nos órgãos que governam a Universidade." - Professor Eugenio Bucci.
O Reinaldo Azevedo da Veja jogou muitíssimo baixo e depreciou a imagem desse professor ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-petista-que-nao-gosta-se-sujar-o-shortinho-da-%E2%80%9Caula-publica%E2%80%9D-para-minoria-truculenta-e-um-braco-de-haddad-na-usp-o-higienista-que-acha-que-policia-e-coisa-pra-pobre/#comment-1867702 ).
Aqui tem um depoimento sobre quem viu a aula (uma amiga do curso): "Eu estive nessa aula, e como aluna da ECA, achei de extrema produtividade e esclarecimento um debate como esse, pois o professor utilizou a “maiêutica” socrática com os alunos para ajudá-los a firmar suas próprias opiniões, sem nenhum julgamento prévio. É preciso citar também que dois alunos daqueles que foram presos no escândalo da reitoria compareceram à aula, mas não foram ovacionados ou louvados, apenas escutou-se o que eles tinham a dizer, pacificamente. Eu sempre me preocupei com política dissimulada no aprendizado acadêmico, mas posso garantir que não havia nada disso nesse debate. Antes de criticar meu professor, espero que pensem muito bem na fala sensacionalista de Reinaldo, que só consegue se fazer ouvido xingando nós, os alunos - isso é justo? É deselegante."
A UOL foi um dos pouquíssimos veículos que finalmente questionou um pouco isso tudo e deu espaço para ouvir as vozes de quem está presenciando de perto. Podem ler mais aqui: http://noticias.uol.com.br/educacao/2011/11/10/alunos-da-usp-criticam-imprensa-e-contam-suas-versoes-sobre-confrontos-com-a-pm-no-campus.jhtm?cmpid=facebook
Gente, espero ter sido um pouco esclarecedora para muitos que não conseguem realmente ver de perto o que ocorre ali. Embora possamos discordar em muitos pontos, a questão é válida. Mesmo com a presença da PM no campus ainda ocorrem inúmeros assaltos e roubos de carro, por exemplo, e pontos estratégicos estão sempre DESERTOS, pontos mal iluminados e espaços abertos grandes, sem uma viva alma, e isso está errado pois a polícia está dentro do campus mas não necessariamente cumprindo com o trabalho de segurança que deveria ser esperado.
O que acho errado é que os processos sejam todos retirados uma vez que, querendo ou não, os alunos quebraram com algumas leis. Outra coisa que não acredito é que a PM deva ser expulsa imediatamente lá de dentro. Infelizmente, enquanto não houver um plano de segurança como o citado acima é preciso que haja uma proteção mínima na faculdade, e gostando ou não a PM faz isso. Mas é plausível que alguns sejam contra com o argumento de que se eles ficarem lá ninguém vai seguir com o plano que é sugerido, e eles vão ficar lá para sempre. Não vou me prolongar muito mais e acreditem eu poderia prolongar muito mais... Mas apenas queria abrir uma outra versão fora a que a mídia tem vendido. Quem estava na usp de madrugada quando houve a reintegração de posse sabe o sufoco que passou, e quem tem ido as assembléias e lutado por um lugar de convivência segura e liberdade também sabe porque luta. Tudo é muito complexo e convida a inúmeros debates, mas enfim, vou encerrar por aqui., Sintam-se livres para me perguntar o que quiserem e tentarei esclarecer como posso. Argumentos são bem vindos, também.
Obrigada pela atenção a todos que tiveram a paciência de ler isso.
beijos
8 pitacos:
É de emudecer a dimensão da tamanha aprendizagem que você tá vivendo com isso tudo, Paulinha.
Foi com muito custo que muitos, inclusive alguns Medeiros mais velhos, se mobilizaram contra aquele velho lema ditatorial que dizia que "estudante é pra estudar".
Entre discussões válidas e métodos problemáticos, todos acabam aprendendo muito com essa questão. Principalmente aqueles que conseguem ver que o mundo é MUITO MAIOR que o próprio umbigo.
Espero que os desdobramentos disso tudo contribua para que a responsabilidade por um bem público seja maior que a simples preservação física de uma patrimônio.
Um abraço e parabéns aos que se envolvem seriamente com a questão.
Parabéns pelo texto, Paula!
;D
Obrigado, Paula, pelo texto esclarecedor e pelo testemunho único, em todos os sentidos. De fato, como o Rainer disse em sua feliz colocação, tudo o que você pode aprender enquanto pessoa e cidadã ao passar com um olhar num só tempo crítico e aberto por tudo isso é algo de um valor inexpressável. Seja aberta e pense criticamente e com total independência, e viva o momento (e nos transmita assim). Não esqueça, se me permite, a frase: "não concorde comigo nem com Rousseau. Veja-nos, analise criticamente e tire suas próprias elucidações." Não ligue para o que for veiculado na imprensa: toda imprensa, sem exceção, é opinativa; toda opinião é pessoal e tem a possibilidade (e o direito) de estar completamente errada. Além do mais, gente como o citado jornalista costuma olhar apenas fatores políticos e dão um tom monocórdico, às vezes, a questões bem mais complexas e dinâmicas, o que prejudica a compreensão do todo.
Muitas pessoas da nossa família, a começar lá em casa, sabes bem, engajaram-se por causas que estimaram justas em seu período estudantil, e todos pagaram um preço para colher seus frutos. Os contextos e épocas são outros, mas Se no meio dessa história toda achares que no longo prazo há bons frutos a serem colhidos, então apoie a ação que prezares mais justa e acertada.
Continue nos escrevendo, ouça o que as pessoas têm a dizer, não pre-julgue mas use e abuse do seu juízo crítico e da tua independência intelectual e dos teus sentidos.
Depois me explique melhor uma coisa, por favor: por que os que defendem a PM fora do Campus assim pensam? Qual é, afinal, o mal da presença policial num campus com histórico de violência criminosa nos últimos anos? Essa é a parte que quero entender melhor. Em princípio, fico aliviado quando há policiamento nos campi por onde passo, por isso (e partindo, justamente, do princípio que a USP não é um recinto de maconheiros temerosos) queria entender melhor o que causa essa rejeição à polícia num Brasil democrático e livre? Boa sorte com a tua rotina universitária, e cuide bem de você. Beijo
Luquinhas, os alunos protestam contra a violência e abuso de poder da polícia. Muitos alunos prestam depoimentos que desde que a PM está lá já foram revistado inúmeras vezes, em frente a colegas e professores por serem negros, barbudos, etc... Esse é um pequeno motivo apenas para te exemplar a raiva de alguns. Outros dizem que a polícia é sempre abusiva e não faz o papel de segurança que deve. Como citei no texto, áreas enormes e mal iluminadas da USP ficam vazias e a PM está no campus, mas muitas vezes perto de um portão onde há iluminação, ou dentro do carro passeando pela faculdade, sem grande vistoria onde é preciso. Outros alegam que ela está mais preocupada em confiscar por ex maconha dos alunos do que rondar lugares importantes na universidade...(polêmico...). No dia da prisão dos alunos que invadiram a reitoria, de madrugada chegaram mais de 400 policiais da tropa de choque, outros em cavalaria e até um helicóptero na situação. Os alunos presentes disseram que os alguns só estavam lá para nao deixar a mídia filmar o que faziam (um deles obrigou uma menina da USP a excluir o vídeo do celular qd a viu filmando), entraram nos prédios sem deixar ngm ver o que fizeram lá dentro com os alunos, deixaram vários alunos cerca de 3h/4h/5h/6h dentro de uma van para serem presos, jogaram gás lacrimogênio na entrada do CRUSP (moradia universitária) às 5h da manhã, impedindo assim q os alunos dali saíssem de manhã cedo... ou seja, basicamente há um abuso de poder e violência gratuita que os alunos protestam. Sem contar que o reitor acha que pôr alguns PM no campus é a solução dos problemas, quando obviamente não funciona tão bem assim... É mais ou menos isso... Eu nao tenho nenhuma experiencia pessoal para contar e nem acho que a polícia EM GERAL seja assim pois é formada por pessoas e pessoas são diferentes... Mas a discussão é essa, basicamente. E, claro, a ideia que a universidade é um espaço livre onde somos livres para protestar e etc sem 400 policiais para impedir....
Só nesse pequeno comentário à minha resposta você já esclareceu mais coisas, mesmo que de maneira incompleta, sobre o confronto na usp do que a toalidade das coisas que li por aí. Provavelmente que há indivíduos que, de fato,não querem a PM por lá por motivos nada nobres, mas certamente que todo o debate não se resume a isso, e ainda que haja fatores políticos graúdos na história há também pessoas com razões individuais diversas de um lado e de outro que não estão sendo levadas em conta n'a aritmética da notícia. É isso que espero que, com o tempo e entedimento, poderás me explicar melhor. Beijo, e obrigado!
Linda obrigado por participar as informações e nos deixar a par dos acontecimentos. Tinha feito um outro comentário maior, mas houve erro e não foi publicado. beijos
Paulina, fico feliz que você esteja vivendo, de fato, a universidade. O aprendizado extra-classe (pesquisa/ extensão/ movimento estudantil) é parte essencial na formação acadêmica e política de qualquer estudante. Infelizmente, esse aprendizado extra-classe, sobretudo a participação dos estudantes nas decisões político-pedagógicas da universidade, é negligenciado, e, por vezes, marginalizado.
Como você disse: o mais importante é a construção. A consciência de que um problema é um problema, não convindo simplificar todo um debate/concepção de política pública (segurança na USP) na qualificação dos estudantes como um bando de baderneiros/filhinho-de-papai/desocupados/maconheiros.
Pessoais plurais, interpretações igualmente plurais. Enfim, não devemos acreditar em tudo que ouvimos/lemos por aí. O importante é filtrar-refletir e assegurarmos a qualidade das discussões.
Gostei da finalização do nosso querido professor Rainer: “espero que os desdobramentos disso tudo contribua para que a responsabilidade por um bem público seja maior que a simples preservação física de um patrimônio”.
Obrigada por compartilhar suas considerações conosco! Parabéns pelo texto! Boas movimentações por aí!
Beijos.
Muito bom conhecer a análise de quem está vivenciando esse debate do lado de dentro.
Qdo ouvi/li a notícia do dia de conflito, me vi pensando se a polícia não teria mais a quem perseguir, fora dos muros acadêmicos!? (O controle policial parece estar sempre atrasado nas causas realmente importantes p/manter uma sociedade segura e justa).
Não sou contra o controle das drogas, mas sou contrária à violência como forma de controle. Creio que 1/2 dz de alunos reagiram "bestialmente" na desfesa de seu baseado, mas esses representam uma minoria. Ao visitar o campo da USP, à luz do dia, a segurança é quase inexistente, à noite, as luzes fracas causam tremenda insegurança.
Há muito que a segurança é benvinda ao campus, não pelas drogas, mas pela segurança dos jovens que lá estão, cujas vidas são valiosas.
Esse conflito mostra ser mais um exemplo da droga da administração e da política nocivas cujo exercício viciante produz estragos alarmantes, como os que temos visto nesse episódio. A risco está em ver só uma parte do problema.
Estimo que possam encontrar uma raoável solução p/ um probema complexo.
Paulinha, obrigada pelo texto esclarecedor, e pela sua participação nos dabates que visam
melhoria no meio acadêmico e na sociedade.
Paula,
Grato por partilhar conosco suas vivências.
Mesmo que todos olhem para o céu, podem não estar mirando as mesmas estrelas.
Assim, nas lutas sociais. Um é o que é; outro o que parece; o que parece ser; o que querem que pareça. Um é o argumento; outro, a forma do argumento. Um o interesse; outro, o interesse do interesse.
É no meio dessa fornalha que o martelo da participação e a bigorna da nossa consciência nos moldam para a vida.
Beijos.
(Ah, ia esquecendo. Infratores não carregam letreiro. Não vai existir segurança dos sonhos; policiamento sem incômodo. Não devemos tolerar abusos, despreparo, incompetência... e ingenuidades).
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